A humanidade e os manguezais antes do ocidente IV: civilizações americanas – OPINIÃO > ARTHUR SOFFIATI

Uma das ilustrações do Códice Azcatitlan, retratando flora, fauna, caminhos, pegadas humanas e aspectos culturais do México
Arthur Soffiati

Civilização mexicana

O nome civilização asteca é impróprio. Na verdade, os astecas eram um povo dentre vários no México pré-europeu a compartilhar com outros a mesma cultura e a língua náuatle, o que conferia unidade cultural a eles. Por meio de guerras, os astecas tornaram-se dominantes e criaram um império no México nos séculos XIV a XVI (há quem use as datas redondas de 1300 a 1521).
Antes da unificação, os povos mexicanos que partilhavam a mesma cultura organizavam-se em cidades-Estados. Algumas delas formaram alianças políticas. Chegou mesmo a haver pequenos impérios que antecederam o asteca.
Domínio asteca, em verde
Com base na agricultura, principalmente no cultivo de milho, os povos mexicanos desenvolveram uma pujante cultura com forte divisão social do trabalho. Havia uma nobreza dominante e plebeus trabalhadores. Tenochtitlán era a capital do império, assentada em ilhas do lago Texcoco. O domínio asteca formou-se e consolidou-se pelo exército e pelo comércio. A influência política dos astecas estendeu-se para o sul, alcançando a Guatemala, e para leste e oeste, atingindo os oceanos Atlântico e Pacífico.
Arthur Soffiati
Em direção ao norte, a cultura mexicana alcançou a bacia do Mississipi, dando origem à civilização mississipiana, considerada por Toynbee uma civilização satélite da mexicana. Os povos formadores dessa civilização conheceram os manguezais, pois o território que habitavam situa-se na zona intertropical. Tanto no oceano Atlântico quanto no Pacífico, ocorrem manguezais. Eles encontram ambiente favorável nos golfos do México e da Califórnia, mas não apenas.
No entanto, nenhum documento dos povos mexicanos faz menção ao manguezal. Temas econômicos, políticos e religiosos dominavam a atenção da elite imperial. Além do mais, o Estado asteca tinha seu centro governamental e cultural no centro da meseta do país, em ponto afastado das costas atlântica e pacífica.
Manguezal na foz do rio Balsas – Costa mexicana do oceano Pacífico
O império asteca estava vivendo sua máxima expansão quando os espanhóis aportaram no México liderados por Hernán Cortés. Ele aliou-se às cidades-Estados que ainda não haviam sido dominadas pelos astecas na luta contra o império. As doenças e as armas de fogo foram fundamentais na conquista de Tenochtitlán, em 1521. Os espanhóis fundaram sobre ela, então, a cidade do México, perpetraram um verdadeiro genocídio dos nativos e iniciaram o trabalho de cristianização dos sobreviventes. Um dos meios de dominar os nativos foi aliar-se à nobreza pré-existente.
DO MESMO AUTOR
– Minha amiga Norma
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente III
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente II
– A humanidade e os manguezais antes do ocidente I
– Peixes das nuvens
– O manguezal como cenário
– Foi um rio que passou em minha vida
A dominação espanhola criou um grupo de mexicanos que aprendeu o espanhol e escreveu sobre sua terra e seus costumes em espanhol e/ou em náuatle, a língua dos nativos. Entre os clérigos espanhóis que buscaram informantes indígenas ou aprenderam a própria língua local para fornecer informações sobre a civilização mexicana estão os franciscanos Bernardino de Sahagún, Toribio de Benevente Motolinia, Juan de Torquemada, o dominicano Diego Durán, o jesuíta mexicano Juan de Tovar, a quem se atribui o Códice Tovar.
O Códice Azcatitlan foi provavelmente escrito alguns anos após a chegada dos espanhóis. Trata-se de um documento precioso que relata com muitas imagens a história dos astecas, a chegada de tropas espanholas chefiadas por Cortés e a introdução do cristianismo. O Códice Mendoza também contém informações preciosas. Deve-se levar em conta que os europeus ficaram fascinados com a pujança da cultura mexicana, e os nativos que aprenderam espanhol não abandonaram sua cultural ancestral. Os documentos dos primeiros tempos em grande parte são híbridos, como aconteceu no Peru.

Civilização mississipiana

Recebendo influência da civilização mexicana, a cultura que floresceu na bacia do rio Mississipi e de rios próximos aproximadamente entre 800 e 1500 d.C. O conquistador espanhol Hernando Soto chegou aos seus domínios em 1539. Antes mesmo do contato com os europeus, a civilização mississipiana já estava em declínio, deixando apenas sua cultura material.
Distribuição de manguezais nos Estados Unidos
Como no caso do México, havia uma cultura que se distribuiu por vários povos. O núcleo urbano de Cahokia, em Illinois, é um notável exemplo dessa cultura nos séculos XIII e XIV, com um grande complexo de montículos, dispostos em torno de quadrados retangulares, onde morava uma população de 5.000 a 10.000 pessoas. A economia mississipiana baseou-se no cultivo intensivo de milho, feijão, abóbora e outras culturas, com grandes concentrações de população em cidades ribeirinhas. A sociedade era hierarquizada. O comércio era pujante, com intercâmbio com os maias, como se supõe.
Pirâmide na cidade de Cahokia
Todo centro urbano contava com uma praça cerimonial. Praticou-se o artesanato em cobre, concha, pedra, madeira e barro. Como a civilização estendeu-se à costa atlântica, sobretudo no golfo do México, não há dúvidas de que teve contato com manguezais, embora não existam documentos comprobatórios.
Pequeno bosque de mangue vermelho no golfo do México

Civilização maia

Quando os europeus iniciaram a colonização da América, no século XVI, a civilização já havia passado por seu período de apogeu. Pesquisas mostram que a cultura maia nasceu na costa pacífica da América Central a partir de sociedades neolíticas. Daí, elas colonizaram terras correspondentes à Guatemala atual. A primeira inscrição em hieróglifos maias remonta a cerca de 250 a.C.
O período clássico da civilização maia desenvolveu-se entre cerca de 250-900 d.C. Houve o desenvolvimento da urbanização com cidades monumentais, como Tikal, Palenque, Copán, Calakmul e Uxmal. Eram cidades-Estados que conseguiam exercer domínio regional, mas nunca formar um império como os dos astecas e dos incas. A arquitetura era grandiosa, com pirâmides usadas como templos e não como túmulos.
Numerosas eram as inscrições gravadas em monumentos e grande o desenvolvimento intelectual e artístico. Os maias construíram a única civilização da América a desenvolver uma escrita refinada e o mais preciso calendário do mundo até o século XIX.
Mapa histórico dos territórios habitados por povos de língua maia
A agricultura era a base da economia. A população aumentou significativamente, organizando-se com forte hierarquia social. Só mesmo com uma rígida divisão social e regional do trabalho foi possível liberar pessoas para o urbanismo, a arquitetura, a ciência e o artesanato. Através do comércio, os maias estabeleceram contato com o México, com a civilização andina, com a civilização mississipiana e com as Antilhas.
Apenas quatro manuscritos maias existem hoje em todo o mundo, dos quais o mais antigo e mais bem preservado é o Códice de Dresden (1200-1250), mantido nas coleções da Biblioteca Estadual da Saxônia e da Universidade Técnica de Desdren. O códice ilustra hieróglifos, numerais e figuras.
Os estudiosos se dividem quanto às causas do declínio da civilização maia. Segundo uma corrente, a superpopulação não pôde ser mantida pela economia. Teriam ocorrido também invasões inimigas e revoltas camponesas, com o colapso de rotas comerciais. A corrente que aponta fatores ecológicos é bem forte. O desmatamento excessivo em terras altas deve ter produzido processos erosivos intensos e o assoreamento dos vales, com embrejamento, proliferação de vetores de doenças, epidemias, mudanças climáticas, falência da agricultura e fome.
Desenho do Códice Dresden
A relação população-ambiente tornou-se desfavorável ao segundo. Alguns estudiosos apontam ainda uma intensa seca de duzentos anos decorrente das mudanças ambientais. Toynbee e Dorst acreditam que as profundas alterações ecológicas estão na raiz da crise. Dorst escreveu:
“A população aumentou com o passar do tempo, a ponto de atingir, segundo parece, três milhões de pessoas. Por conseguinte, tornou-se necessário estender as superfícies cultivadas, passando-se das planícies férteis, enriquecidas por aluviões, às encostas. O arroteamento das florestas protetoras dispostas em degraus sobre as colinas desencadeou uma erosão acelerada e atulhou progressivamente o sistema fluvial e lacustre. Os solos perderam a fertilidade segundo um processo clássico: a rocha nua estava exposta sobre os relevos, enquanto nas planícies os solos se achavam cobertos por camadas improdutivas. Pouco a pouco, as terras tornaram-se incapazes de prover ao sustento da população. Em seu estado atual, o Petén já não pode fornecer os recursos necessários a uma população de densidade igual à do período de fastígio Maia”.
Tanto na costa pacífica quanto na costa atlântica, os maias encontraram manguezais, mas não deram notícia deles. Para os povos nativos da América, a religião era muito importante e monopolizava a atenção das pessoas. Além do mais, os manguezais não deviam representar significativa importância econômica. É o que pode se depreender do Códice Dresden.
Entrançado de rizóforos na península de Iucatã, território em que se desenvolveu a civilização maia

Civilização andina

Como as demais primeiras civilizações, a andina desenvolveu-se a partir de sociedades neolíticas, por volta de 800 a.C. Uma dessas sociedades era a inca, que progressivamente dominou a região andina e formou um império. Tanto aparte norte quanto a parte sul do império, que compartilhavam a mesma cultura geral, não foram conquistadas pelos incas. Toynbee reconhece duas civilizações-satélites à andina central, que foi dominada pelo império. O apogeu da civilização andina foi alcançado no século XV.
As obras imperiais impressionaram os europeus: urbanismo monumental, arquitetura portentosa, estradas, pontes e uma agricultura eficiente, usando irrigação. A sociedade era caracterizada por marcada estrutura de classes. A capital do império era Cusco. Contando com um exército bem treinado, as terras conquistadas eram distribuídas na divisão de quatro partes dos domínios imperiais e submetidos a tributação.
Mapa mostrando o império Inca em amarelo
Os incas construíram duas estradas no sentido norte-sul: uma junto à costa e outra no alto das montanhas com pontes muito bem construídas. As duas eram pavimentadas e ligadas por estradas vicinais. O sistema de correio por mensageiros superava em muito as comunicações na Europa. No seu apogeu, o império Inca incluía terras do atual Peru e Bolívia, a maior parte do Equador, uma grande porção do que seria o Chile. Ele integrava vários povos e línguas, mas havia unidade cultural.
Na costa do Pacífico, os manguezais alcançam, na direção meridional, o rio Tumbes, norte do Peru. Eles não vicejam abaixo desse rio porque a corrente fria de Humboldt não permite condições propícias ao seu enraizamento. Propágulos de quatro espécies de mangue alcançaram o arquipélago de Galápagos partindo da costa americana.
Machu Picchu, última capital dos incas
Embora o centro do império inca se localizasse no alto dos Andes, povos da costa faziam parte dele e deviam conhecer os manguezais do rio Tumbes, além de outros mais ao norte. Contudo, nenhuma informação foi deixada por eles. Com altíssimo grau de desenvolvimento, os andinos não tinham um sistema elaborado de escrita como os maias.
Eles desenvolveram os quipus, signos feitos com nós em cordas que deviam funcionar mais para fazer contas numéricas. Também não criaram a roda e a pólvora. Esta última foi fator fundamental na conquista do império pelos espanhóis, que se aproveitaram de uma guerra civil pela posse do trono inca. As doenças desconhecidas pelos nativos também foram de crucial importância na derrota deles.
Santuário Nacional dos Manguezais de Tumbes
Até hoje, o urbanismo, a arquitetura, a escultura e a pintura andinas impressionam. A língua usada como fator de união do império ainda é falada no Peru.

Civilização amazônica

Ao partirem para a conquista do mundo, no século XV, os europeus sabiam da existência de sociedades com cultura aprimorada no Oriente Médio, norte da África, na Índia, na China e no Japão. A África era um continente a ter seus bens e habitantes pilhados. Sabia-se apenas que o Egito fora o berço de uma civilização pujante e que a população da Etiópia era cristã, embora não seguisse o papa.
Só bem recentemente, pesquisas arqueológicas começaram a revelar extraordinárias civilizações no território africano. Na América, pareceu impossível o desenvolvimento das civilizações mexicana, maia e andina pelos povos americanos, considerados bárbaros.
Pesquisas recentes estão demonstrando que a região amazônica abrigou povos com cultura refinada nas terras não alagadas e não alagáveis. Pelo menos, pouco alagáveis. Terras ao sul da Amazônia, entre as cabeceiras do rio Tapajós e o atual estado do Acre, foram colonizadas por um povo ou povos que sabiam produzir terra preta excelente para a agricultura. Eles construíam aldeias grandes e pequenas, formando uma rede. Elas eram cercadas por fossos e provavelmente por diques nas margens. Deviam ser também protegidas por estacas pontiagudas de pau.
Estima-se que a Amazônia contasse com uma população de 10 milhões de habitantes. Essa rede de aldeias podia comportar de 500 mil a um milhão de habitantes. Essas aldeias deveriam ser ligadas por estradas e hierarquizadas. Havia locais de culto, locais de cultivo e locais de moradia. Tudo, mantendo-se a floresta em pé.
Essa cultura ou civilização da Amazônia desmatava para construir suas aldeias e suas estradas, mas não era um desmatamento raso. A civilização amazônica que está sendo descoberta pelos arqueólogos é um exemplo de como se pode viver em equilíbrio dinâmico com uma floresta tropical.
Há outras evidências de uma ou mais civilizações na Amazônia anteriores às recentes descobertas arqueológicas. As tradições cerâmicas das ilhas de Marajó e Maracá, assim como de Santarém e de Miracanguera exigiram uma divisão de trabalho acentuada e estável que garantisse a especialização de artesãos em cerâmica. As cerâmicas de Marajó e de Santarém apresentam um refinamento digno das tradições cerâmicas de qualquer civilização euroasiática, africana e americana.
Tanga marajoara em cerâmica
Levantamos algumas hipóteses sobre o que os estudiosos vêm denominando civilização amazônica.
1 – Por mais que se fale numa civilização ou civilizações na Amazônia, seus vestígios culturais não são tão evidentes quanto nas outras civilizações americanas.
2 – Se ela é uma civilização independente da andina, podemos falar em civilizações da Amazônia, em vista da diversidade de manifestações culturais materiais.
3 – Se se trata de uma mesma civilização, deve-se reconhecer manifestações culturais diversas pelo extenso território amazônida.
4 – Se admitirmos a existência de semelhanças entre as tradições cerâmicas amazônidas e andinas, pode-se aventar que a civilização dos Andes influenciou povos indígenas muito afastados do seu centro de difusão.
5 – A civilização amazônida ou civilizações amazônidas ou ainda manifestações culturais na Amazônia influenciada pela civilização andina jamais lograram formar um Estado que reunisse todas as sociedades integrantes dela, ainda que alguma sorte local de unificação possa ter existido.
O que se pode afirmar com segurança é que essa civilização, civilizações ou manifestações culturais andinas afastadas dos Andes deixaram de existir antes da chegada dos europeus à América. A andina e a mexicana estavam mergulhadas em lutas civis, mas ainda existiam quando os europeus chegaram. Aliás, foram os europeus que deram o golpe final nas duas civilizações.
Enquanto aguardamos o avanço das pesquisas arqueológicas na Amazônia, pode-se adiantar que os povos produtores das cerâmicas de Marajó e Maracá viviam na costa do território e conheciam os manguezais. Porém nenhum registro dele em sua arte foi revelado. Talvez possa aparecer alguma informação a respeito no futuro ou nunca.
Manguezal na ilha de Marajó
*Athur Soffiati é professor aposentado da UFF e eco-historiador

Referências

ANÔNIMO. Códice Azcatitlan. https://www.wdl.org/pt/item/15280/#q=codices
ANÔNIMO. Códice Dresden.
https://www.wdl.org/pt/item/11621/#q=codice+de+dresden
BUSHNELL, G.H. Origem y desarrollo de la civilización en el Nuevo Mundo.
PIGGOTT, Stuart (org.). El despertar de la civilización. Barcelona: Editorial Labor,
1973.
DORST, Jean. A força do ser vivo. São Paulo: Melhoramentos/Edusp, 1981.
SOFFIATI, Arthur. Novidades da Amazônia. Folha da Manhã, Campos dos
Goytacazes, 22 de abril de 2018.
TOYNBEE, Arnold Joseph. Um estudo da história. Brasília: Editora Universidade de
Brasília/São Paulo: Martins Fontes, 1986.
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