A globalização e os ecossistemas

Nunca é demais repetir que o mundo conheceu várias globalizações. Algumas foram benéficas, como aquelas promovidas pela natureza. A atmosfera atual é fruto de uma globalização promovida por bactérias aeróbicas. Os organismos pluricelulares também dominaram o mundo dos desertos às florestas, das mais profundas regiões dos oceanos, passandopelaspoças d’água mais rasas, e atingindo as mais elevadas montanhas.

Também os humanos formaram impérios, invadindo áreas de outros povos, empreendendo guerras e matanças. Por outro lado, nesses impérios formados a ferro e sangue, brotaram pérolas valiosas, como o budismo mahayana, o cristianismo e o islamismo. Do cruel, nascem bondades e belezas.

A mais intensa e extensa globalização humana concorre com a globalização dos micro-organismos produtores do oxigênio e consumidores de gás carbônico. Ela começou no século XV depois de o capitalismo ganhar força no interior da Europa ocidental. Ele conquistou a África, as Américas, a Ásia, a Oceania e atingiu o mais recôndito rincão do mundo.

É preciso repetir: essa globalização tem 600 anos. Seu conteúdo é ocidental e seu motor é o capitalismo. Nenhuma globalização anterior teve esse caráter. Nem tudo é mau na ocidentalização capitalista do mundo. Pensemos na arte renascentista, no barroco, na música erudita ocidental. Na arte, enfim, inclusive naquela que floresceu com processos de aculturação, como a arte cusquenha e a pintura dos aborígenes australianos.

Mas, por outro lado, não sei se a arte compensa a destruição. Fiquemos, por ora, com a destruição dos ecossistemas nativos e com a extinção de espécies, já que o capitalismo globalizado tende a transformar tudo em mercadoria. Um rinoceronte em si não é visto como mercadoria, mas seus chifres sim. Eles valem uma fortuna no mercado de homens que acreditam no poder deles de aumentar a potência sexual. Os animais da fauna nativa brasileira movimentam um comércio de traficantes que já alcança o terceiro lugar, logo depois das armas e das drogas.

As florestas tropicais da Indonésia, África e América têm lucros embutidos em suas árvores e em suas ervas. Elas constituem um sistema regulador de um clima sem o qual os humanos não conseguem viver. As florestas são responsáveis pelo balanço adequado de gases na atmosfera. Elas absorvem o gás carbônico e produzem oxigênio. Os oceanos efetuam idêntica operação. Florestas e oceanos controlam chuvas e ventos. Abrigam a diversidade da flora e da fauna. No entanto, estão sendo destruídos impiedosamente.

Tomemos o caso do Brasil, que nos é muito conhecido e, ao mesmo tempo, desconhecido. Quando os portugueses, também promotores da globalização, atingiram um ponto do litoral do nosso país, as terras já eram habitadas por humanos com cor de pele, feições e hábitos distintos dos europeus. Pela carta de Pero Vaz de Caminha, os americanos pareciam viver em estado de inocência, como no paraíso judaico-cristão. Sobretudo a nudez das mulheres chamaram a atenção daqueles homens barbudos. A terra parecia magnífica para o cultivo agropecuário. As almas pareciam excelentes para o cultivo de virtudes cristãs. As cartas de Américo Vespúcio confirmam os documentos sobre as Américas nos séculos XV e XVI.

Os atualmente chamados biomas tinham sido usados pelos ameríndios, mas não destruídos. Certos antropólogos e arqueólogos parecem não saber comparar a força de impactos humanos sobre a natureza. Eles escrevem para seus colegas e currículos que nenhum ecossistema terrestre é virgem. Não apenas os ocidentais os desvirginaram, mas outros povos também os estupraram. As intervenções são colocadas em pé de igualdade. Mas quando os europeus começaram a integrar o território do atual Brasil à economia capitalista, Zona Costeira, Mata Atlântica, Caatinga, Amazônia, Cerrado, Pantanal Mato-grossense, Campos Sulinos, ilhas costeiras e oceânica estavam praticamente íntegros.

Hoje, a quase totalidade da Zona Costeira e da Mata Atlântica foi destruída. A Caatinga, o Cerrado e os Campos Sulinos estão na mira do agronegócio. O Pantanal está sendo consumido pelo chamado turismo ecológico. As ilhas costeiras e oceânicas ou foram privatizadas ou também propiciam lucros com o turismo.

Pode-se dizer que a área da Amazônia, originalmente, é constante. Deixada quieta, ela não deveria se expandir para outras áreas. No entanto, o que os governos dos países que têm territórios nela é limitar-se a divulgar dados sobre a diminuição do desmatamento. Os institutos que a estudam cuidam de divulgar o aumento do desmatamento.

Ela sofre, no momento, as ameaças do governo brasileiro, que entrega descomunais fatias do bioma a grileiros, ao agronegócio e à mineração. O governo Temer está vendendo a Floresta Nacional de Jimanxim, no Pará, e a Renca, entre Pará e Amapá. O governo vende floresta, subsolo e privatiza para cobrir o rombo nas contas públicas.

Agora, anunciam a construção das barragens Pongo de Manseriche, Inambare, TAM 40 e Pongo de Aguirre, no Peru; Angosto del Bala e Rositas, na Bolívia. Se erguidas, elas barrarão água e sedimentos para a bacia do rio Amazonas, com consequências imprevisíveis, mas sempre negativas. Enquanto isso, esquerda e direita estão alheias a essas questões porque, para ambas, elas estão fora da humanidade. Contando os bilhões de pessoas que existem no mundo, apenas alguns gatos pingados lutam pelos ecossistemas. As gerações futuras falarão da Amazônia como falam hoje da Mata Atlântica: com nostalgia pela sua extinção.

Arthur Soffiati é pesquisador e historiador ambiental

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