A FACE NORUEGA

Eram 11 horas de um dia quente de janeiro do ano 1946. O sol estava quase a pino e a minha sombra projetada no chão indicava que faltava um pedacinho para ela sumir e mostrar o meio dia. A gente não tinha relógio e estimava a hora pela projeção da sombra.

Desde as sete horas que estávamos capinando a lavoura de café, nosso pai, e nós três os filhos. A área onde estávamos trabalhando ficava numa encosta do morro que dava para a face sul e alem disso, era recuada na ondulação da vertente e por isso recebia muito pouco a luz do sol.

Onze horas, acabávamos de alcançar o topo da lavoura e houve uma pausa para descanso. O pai lia muito, tinha uma memória incrível e gostava de falar algum poema ou trechos de contos, ou aproveitava a pausa para ensinar alguma coisa. Ele recuperou o fôlego, respirou fundo, absorveu o frescor do ambiente e disse: Hoje está muito quente e essa parte da lavoura que recebe pouco ou quase nenhum sol, é conhecida como “face noruega”, o que me faz lembrar de um conto de Monteiro Lobato chamado Estigma, onde um personagem fala “ Laura é como um raio de sol matutino que aquece e faz viver a face noruega da minha vida”.

Hoje, setenta anos depois, sentado numa espreguiçadeira confortável e olhando a vegetação à volta, a cena veio-me à tona, e uma avalanche de pensamentos inundou minha mente.

O que será que ele estava querendo transmitir para os filhos? Querendo ou não, ele estava comunicando algo. Os pais estão sempre ensinando alguma coisa.

Será que ele estava dizendo: “Olha, plantar, cuidar, e colher os frutos da terra é importante, mas existem outras coisas importantes tais como ler bons livros, sejam poemas contos, romance, ensaios, para adquirir conhecimentos , novas idéias, novas opções, outras alternativas de vida”.

Ou será que ele estava dizendo: “ Olha, quando você quiser comunicar bem com os filhos, escolha um ambiente agradável como este aqui, e faça um momento de pausa”.

Ou então: “ a face noruega é uma área onde a luz do sol só penetra em alguns dias do ano e por isso algumas plantas não se desenvolvem bem, mas algumas outras sim, como vocês podem ver nessa parte da lavoura e os frutos d’aqui produzem um café muito apreciado e valorizado. Assim cada ambiente fornece um contexto adequado a algum resultado bom”.

Ou então: “Olha, se sua plantação não está dando o resultado que você espera, então deve estar faltando alguma luz que vai modificar a maneira como você está cuidando do assunto”. Todas essas hipóteses são interessantes e validas, mas eu gosto também da seguinte: “meu filho, tome sempre consciência de como você está se sentindo, de suas sensações. Aqui agora, percebemos uma sensação muito boa produzida pelo ambiente, e que está sendo percebida por causa da pausa que fizemos. Na vida é necessário cuidarmos sempre do ambiente onde plantamos e colhemos e também fazermos pausas para sentirmos nossas sensações. Elas são os indicadores que fazem gerar nossas ações da vida. Sensações boas geram comportamentos bons, sensações desconfortáveis geram ações duvidosas ou negativas”.

Aquele dia do mês de janeiro de 1946 foi fotografado e registrado pela mente, guardado com carinho por causa da sensação boa e feliz que estávamos sentindo e também porque o pai estava ensinando algo bom que certamente foi aprendido pelo inconsciente. Mas naquele dia, conscientemente, eu estava apenas me divertindo.

Os ensinamentos da vida que a mãe e o pai passam são aprendidos pelo inconsciente. Se você se perguntar, o que eles ensinaram, você terá dificuldades para enumerá-los e provavelmente apenas fará uma lista de palavras abstratas, tais como coragem, amor, honestidade, respeito, etc. mas se você olhar como você vive e como se comporta, como se relaciona, então poderá ter uma pálida visão do que eles ensinaram. Mas essa visão terá muitos buracos vazios, se pensarmos nos muitos anos de ensinamento.

Alem disso o que eles realmente ensinaram não é o que aparenta, mas sim o que a mente do filho percebeu e processou. O resultado da comunicação não é o que você pensa que está comunicando, mas o que o outro percebe, processa e entende.

No processo da plantação, o agricultor lança sementes de feijão e colhe feijão, se plantar milho, vai colher milho, mas quando o pai planta ensinamentos, o que vai ser gerado na mente do filho pode ser bem diferente. É como lançar feijão e colher milho. O cérebro humano não é como a terra, onde você colhe o que plantar. Ele tem a habilidade de produzir milho de uma semente de feijão!

Naquele dia de janeiro de 1964, éramos três filhos e o ambiente e as palavras foram aparentemente iguais para o três, mas certamente cada mente gerou um aprendizado diferente, e isso é que faz a diversidade e a complexidade e a beleza da vida.

O filho sabe inconscientemente que tem a mãe e o pai em de sua mente formando um laço tão forte que nada no mundo é capaz de destruir e é este laço indestrutível e inconsciente que faz o ser humano amar, defender e perpetuar a família e a espécie.

ATÉ MAIS.

J. A. Sathler (sathlerjoe@gmail.com)

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