A enchente de Maricá

A enchente de Maricá
A enchente de Maricá

A enchente de MaricáComplexo lagunar de Maricá. Imagem Google Eart

Quem examina um mapa topográfico ou uma imagem aérea da Região dos Lagos perceberá que a formação de restingas, nela, conta com dois elementos favoráveis: pontos sólidos de retenção de areia e correntes marinhas transportando sedimentos arenosos. Observem Maricá na imagem abaixo. As elevações cristalinas formam um arco que alcança o mar em dois pontos: Itaipuaçu, à esquerda, e Ponta Negra, à direita de quem olha. Existem algumas intrusões desse arco montanhoso avançando para o mar. Ocorrem, na Região dos Lagos, mais condições propícias à formação de restingas que na costa entre os Rios Macaé e Itapemirim, onde os rios, sobretudo o Paraíba do Sul, exerceram a função de espigão hídrico para reter areia. Cabe lembrar que a maior restinga do Estado do Rio de Janeiro foi construída por uma associação do mar com o Paraíba do Sul.

O trecho da Região dos Lagos em que se encontra Maricá atualmente foi, no passado geológico, uma ampla enseada em que as duas pontas favoreceram o acúmulo de areia e a formação lagoas, como as de Maricá, Jacaroá e Guarapiné, todas interligadas. É natural que os canais de ligação entre esse complexo lagunar e o mar busquem pontos protegidos por pedras, como é o caso dos Canais de Ponta Negra e de Itaipuaçu. Nas montanhas, havia florestas densas, enquanto que, na restinga, o substrato arenoso e os ventos selecionaram uma vegetação classificada como pioneira de influência marinha.

O príncipe Maximiliano de Wied-Neuwied e Auguste de Saint-Hilaire, naturalistas europeus que cruzaram a Região dos Lagos em 1815 e 1818, respectivamente, ficaram encantados com a vegetação nativa da parte montanhosa. Maximiliano exclama na Serra de Inoã, divisor de águas da Baía de Guanabara e da Região dos Lagos:

“Entramos num profundo vale, em que a água muito límpida ora corre sobre um leito de pedra, ora descansa em lagoa tranquila. Pouco além de uma floresta imensa, da qual nenhuma imagem pode dar uma ideia adequada (…) Naquelas sombras espessas, próximo às frias correntes da montanha, o viajante afogueado, especialmente o nascido nos países do norte, goza de uma temperatura absolutamente refrescante, aumentando o encanto que essas cenas sublimes trazem ao espírito, incessantemente arrebatado pelo selvagem panorama (…) Até as rochas se cobrem de milhares de plantas carnosas e de criptógamos entre estes belíssimos fetos, que em parte pendem das árvores, de maneira pitoresca, como fitas emplumadas (…) As árvores das florestas brasileiras são tão colossais que as nossas espingardas não lhe alcançam o cimos, de modo que muitas vezes atirávamos baldadamente em magníficos pássaros (…) A luxúria e a riqueza do reino vegetal na América do Sul é consequência da grande umidade que prevalece em toda parte. É uma nítida vantagem sobre todos os demais países quentes.”

Não difere muito a impressão que essa floresta causou ao espírito de Saint-Hilaire. Rumo a Ponta Negra, Maximiliano observa que o terreno próximo às lagoas era baixo e pantanoso. Maricá não passava de uma aldeia com poucas e rústicas casas. Tanto um quanto outro registram processos de destruição em marcha, mas nenhum dos dois suporia que chegaríamos ao estado crítico em que vivemos no mundo todo. Os registros de ambos e a situação atual creio confirmarem minha tese de que as relações do ocidente com a natureza são belicosas desde 1500, data redonda para o início do processo de globalização, que nada mais é que a expansão da economia de mercado europeia pelo planeta.

Marica é hoje muito diferente daquela aldeia encontrada por Maximiliano de Wied-Neuwied em 1815. Hoje, é uma cidade balneário badalada com propaganda enganosa em várias partes do mundo. Ela foi se espalhando desordenadamente pelo restinga principalmente, com muitas partes baixas e sujeitas a inundações. A drenagem é difícil. A vegetação nativa da serra e da baixada, que ajuda na infiltração das águas pluviais e na retenção delas nas partes altas, foi quase totalmente removida. No seu lugar, estendeu-se a cidade.

Os canais de escoamento para o mar estão poluídos e atulhados. Se limpos, há o problema das marés e das ressacas, que podem facilitar a entrada de água do mar no continente e agravar mais ainda o problema de drenagem. Inútil tentar abrir outros canais na linha de costa desprotegida. O mar os tapariam rapidamente com areia em suspensão pelas correntes marinhas.

Para agravar, as chuvas têm aumentado em função de mudanças climáticas. Estamos no final de um episódio do El Ninõ, intensificado pelo aquecimento global. Se este argumento é polêmico para muitos estudiosos ou leigos, tenho a dizer que as temperaturas médias do planeta estão aumentando, assim como as concentrações de gás carbônico na atmosfera. São dados insofismáveis. Por uma questão de precaução, deveríamos levar esse dois fatores em conta.

O que se pode esperar ainda é que a água acumulada e a destruição dos ecossistemas nativos, com o empobrecimento da respectiva biodiversidade animal, crie mais focos para a proliferação de insetos transmissores de doenças, sobretudo mosquitos. Maricá começa a pagar pelo ocupação desordenada da natureza, como em Saquarema, Araruama, Iguaba, São Pedro da Aldeia, Búzios, Cabo Frio e em todo o mundo, de acordo com suas peculiaridades. Inútil jogar a culpa nos ombros de algum governante ou de alguém individualmente. Querendo ou não, a responsabilidade é do modo de vida seguido pelo ocidente e disseminado pelo mundo todo. Na minha opinião, não há mais como revertê-lo. O carro em alta velocidade chegou à beira do precipício e cairá nele, mesmo que afundemos o pé no freio.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

{loadposition facebook}

COMPARTILHAR