A destruição a nossos pés

A destruição a nossos pés
A destruição a nossos pés

A destruição a nossos pésTepor, maquete (reprodução)

Ao ingressar no Holoceno, há cerca de 12 mil anos antes do presente, nossa espécie, o “Homo sapiens”, já contava com um sistema nervoso central complexo e capaz de responder desafios muito estimulantes. Ele já dominava o fogo, acreditava no sobrenatural e sabia fabricar ferramentas de caça sofisticadas. É quase certo que já domesticara o lobo, transformando-o em cão.

Assim, quando o clima esquentou e geleiras se derreteram, elevando o nível dos oceanos, o desafio estava configurado: um clima quente, distinto daquele ao qual os hominídeos se adaptaram durante milênios. Houve três respostas a esse desafio: procurar manter a cultura apropriada a ambientes frios acompanhando o recuo das geleiras, extinguir-se ou desenvolver culturas condizentes com a nova época quente. As sociedades que caminharam para a terceira alternativa domesticaram plantas e animais, deixando para trás o modo de vida paleolítico e criando o neolítico como nova fase histórica.

Se a humanidade parasse nessa fase, tudo bem. A agricultura e a pecuária causaram danos ao ambiente, mas não a ponto de provocar desequilíbrios ambientais profundos.

A diversificação social interna das sociedades neolíticas, contudo, criaram contradições sociais internas que acentuaram as divisões sexual e técnica do trabalho, já existentes nas sociedades paleolíticas, e gerando as divisões espacial e social do trabalho. A divisão entre campo e cidade foi a mais notável, mas até aí tudo bem. As agressões ao ambiente aumentaram, mas a Terra as suportou com tranquilidade. Os excedentes de produção propiciaram o desenvolvimento de comerciantes em todas as civilizações, mas eles se limitavam ao aumento ou à diminuição da produção econômica, voltada para a subsistência. A economia de mercado estava limitada por contingências externas a ela.

A humanidade poderia ter parado nesse nível material e desenvolver, doravante, instituições éticas e espirituais. Mas uma das diversas civilizações hipertrofiou o comércio e criou a economia de mercado. Fo a civilização ocidental, aquela em que nós nascemos. Tudo passou a girar em torno do dinheiro. O feudalismo e o mundo foram subordinados ao comércio.

Não satisfeitos com o dinheiro acumulado, os comerciantes promoveram a revolução industrial para aumentar a produção e os lucros. Progressivamente, a economia de mercado foi se globalizando e chegou ao estado em que vivemos. Nunca houve tantas pessoas no mundo, nunca houve tantas desigualdades sociais, nunca houve tanta destruição da natureza. Caminhamos do melhor para o pior, do belo para o feio. A história do mundo ocidental e ocidentalizado é a história da destruição.

E não pensemos que nós, na Região dos Lagos, no norte/noroeste fluminense e em tantos outros lugares, estamos livres desse processo socioambiental massacrante. Ele está a nossos pés. Um dos aspectos dele é a febre de construção de complexos portuários numa costa imprópria para este tipo de empreendimento porque tem uma costa desprovida de formações pedregosas e de reentrâncias. Este trecho costeiro, de norte para sul, estende-se da margem direita do Rio Itapemirim à margem esquerda do Rio Macaé. Ao longo dela, os empresários sequiosos de ganhos financeiros projetaram o porto Central, o porto de Canaã, o Complexo Logístico Industrial Portuário do Açu (CLIPA), o complexo de Barra do Furado e o Tepor.

Mais que a luta dos ambientalistas, a crise econômico-político do governo Dilma tratou de eliminar temporária ou definitivamente os portos de Canaã, de Barra do Furado e o Tepor. As crises representam oportunidades de repensar o estilo de vida de uma sociedade. É lamentável que o sistema econômico que levou à crise atual seja desejado novamente sem reflexões. Tanto a situação quanto a oposição, tanto empresários quanto trabalhadores, tanto os grupos políticos e econômicos quanto a sociedade civil entendem que o veneno causador da crise é o remédio para ela. Os danos do crescimento econômico não podem ser remediados com o mesmo crescimento econômico.

O momento de mudança é agora. Em vez de termelétricas, hidrelétricas e portos, é hora de explorarmos as energias solar, eólica e da biomassa. Em vez de royalties, devemos apostar no trabalho e na produção de bens socioambientalmente úteis. A mim me parece que a decisão do ICMBio foi muito cômoda: já que o Tepor não vai vingar por razões econômicas, proibamos o Tepor. Seja como for, a decisão do Instituto Chico Mendes é bem-vinda. Bastam os complexos portuários Central e do Açu. Eles já vão extrapolar os limites de sustentação ecológica;

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos.

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