A crise hídrica na Costa Verde

Bem diferente da região norte do Estado do Rio de Janeiro é a região sul do mesmo estado, chamada de Costa Verde. Enquanto no norte fluminense, um vasto aterro natural formado por tabuleiros e larga planície fluviomarinha afasta o mar da montanha, na Costa Verde, a montanha molha seus pés no mar. O litoral da Costa Verde é todo recortado com formações pedregosas.
No norte fluminense, a distância entre a zona serrana alta e baixa e o mar é muito grande, graças, principalmente, ao Rio Paraíba do Sul, o maior curso hídrico em torno do qual se constituiu o Estado do Rio de Janeiro. Esta distância permitia que as águas advindas da zona serrana permanecessem no continente por muito tempo, formando um verdadeiro pantanal. Seu escoamento para o mar ainda é lento e problemático porque a energia marinha é muito forte e tende a barrar as saídas.


Litoral do Estado do Rio de Janeiro com suas baías e baixadas. Imagem Google Earth

Já na Costa Verde, a distância entre a Serra do Mar e o litoral é muito curta para permitir a formação de grandes rios. Os Rios Saí, do Saco, Portobelo (canalizado), Ingaíba, das Pedras, Bracuí, Grataú, Mambucaba, Taquari e Perequê Açu descem da serra e adquirem relativa velocidade. Todos eles transportam algum sedimento e funcionam como espigões hídricos, não apenas depositando os sedimentos carreados como retendo areia em suspensão conduzida pelas fracas correntes marinhas. Existem também vários espigões de pedra construídos nos tempos modernos.


Rio Perequê Açu entre a ponte principal e o mar. Foto do autor

Com a colaboração do vento, os pequenos rios e as correntes marinhas concorrem para a formação de pequenas planícies nas enseadas pedregosas. Este processo deve ter se iniciado nos últimos 5.000 anos, quando o mar recuou e seu nível desceu, desenhando uma nova linha de costa. Muitas pequenas planícies são pantanosas. Nelas, a mistura da água doce que vem dos rios com água salgada do mar formam estuários adequados para a formação de expressivas áreas de manguezal. Assim, a Mata Atlântica que reveste a montanha confina imediatamente com manguezais e algumas áreas cobertas por vegetação de restinga.
Os principais núcleos urbanos instalaram-se também nestas planícies. Os principais são Itacuruçá, Muriqui, Mangaratiba, Conceição de Jacareí, Jacuecanga, Angra dos Reis, Cunhambebe, Perequê e Paraty. De todos, o maior é Angra dos Reis, que, além de encontrar uma planície maior para se espraiar, subiu a serra perigosamente.
Visitei a Costa Verde no início de julho de 2015 e observei os pequenos rios que a banham. Ao entrarem nos meio urbano, suas água acabam poluídas, sobretudo em Angra dos Reis, por serem cercados pela maior cidade da região. Embora a vazão tenha se reduzido pela longa estiagem de 2014-2015, notei que eles estão passando pela severa crise hídrica de maneira mais confortável. Por que razões, eles não sofrem tanto como o Rio Paraíba do Sul que, mesmo em seu trecho final, se apresenta com vazão tão reduzida e com nível tão baixo? Alguns pequenos afluentes seus, como os valões de São Fidélis, secaram por completo. Hoje, seus leitos estão cobertos por capim.


Costa Verde protegida pela Ilha Grande. Notar as montanhas cobertas de matas e litoral recortado. Imagem Google Earth

No Estado do Rio de Janeiro, há quatro baixadas expressivas: a dos Goytacazes, a da Região dos Lagos, a da Baia de Guanabara, a da Barra da Tijuca e da Baía de Sepetiba. Nenhuma delas se situa na Costa Verde, onde há pequenas planícies protegidas de forte correntes marinhas pela Baía da Ilha Grande. A situação da Costa Verde é o oposto da Planície dos Goytacazes. Entre as duas, a Região dos Lagos fica numa situação intermediária entre as duas, com o conjunto de lagoas de restinga, sendo a de Araruama a principal, funcionando como uma baía interceptora das águas e escoando para o mar pelo Canal de Itajuru, fixo pela própria natureza.
A Baixada do Rio de Janeiro é formada por pequenos rios que descem abruptamente das serras em redor da Baía da Guanabara, a mais fechada da costa fluminense. A Baixada da Barra da Tijuca se assemelha à Região dos Lagos, com um conjunto de lagoa costeiras A escoar para o mar pelo canal fixo de Joatinga. A Baía de Sepetiba também conta com a Restinga da Marambaia a proteger a costa interna
A resposta mais imediata que encontrei para a moderada crise hídrica da Costa Verde é que a Serra do Mar intercepta as nuvens que se formam no mar e são empurradas pelos ventos para o continente onde se precipitam na forma de chuva. E as florestas que revestem a serra conservam mais água que em terreno desmatado. Mais uma vez, veio a conclusão tão conhecida: onde há floresta há água.

Arthur Soffiati é historiador ambiental, professor e articulista

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